Tive de tudo
e descobri que desse tudo,
o que valeu mesmo foi o nada.
Lutei de muito.
E para agradar a todos
Fiz do meu todo,
Um possível de tudo.
Mas o que me valeu mesmo foi o
nada.
O nada foi que me ensinou
Muito mais do que o tudo.
O que é ser nada no meio de tudo
isso aí.
O tudo é muito barulho, é ruído.
O nada é o silêncio que paira.
O tudo sabe que é tudo, é cheio.
O nada, nada sabe
e por isso mesmo tende a ser tudo.
O tudo de hoje, com certeza, é o
nada de ontem.
E o tudo, em tudo se acha...
Se acha que é tudo, mas se ficar
sozinho...
É nada ou “quase tudo”.
Ser tudo no nada é fácil,
Mas já pensou em como deve ser
nada, dentro do tudo?
É o artista que se revela no seu
anonimato,
O atleta que se supera em silêncio,
É a obra não publicada, a pintura
guardada,
A graça da obra apenas pelo autor
contemplada.
O tudo é cheio de coisa, de tudo
isso aí que se vê demais.
O nada é o que só se revela
Quando já se está cheio de tudo.
O tudo, todos sabem o que tem para
oferecer.
Mas e o nada?
O nada é o silêncio que paira,
O óvulo que fecunda,
A noite que chega.
O nada guarda, resguarda.
O nada é o mistério a ser revelado.
O tudo tem a necessidade de ser,
O nada sabe que existe.
É o refazer, o reviver e o
reaprender.
O nada te impulsiona.
O tudo te acomoda.
O nada te inspira.
O tudo te consome.
O nada é a certeza.
O tudo, incerto.
Tive de tudo,
Mas foi do nada que eu vim.
É assim, do nada que acontecemos.
Hoje somos um tudo, um todo.
Somos juntos, um pouco de tudo
Nesse imenso nada.
Somos apenas um tudo, vestidos em
matéria,
Daquilo que um dia
Já foi monte de “nada”.
Autora: Camila Carvalho

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