Ano de 1904 na Cidade do Rio de Janeiro, capital da República do Brasil. A varíola leva a um elevado número internações no Hospital São Sebastião. Nas ruas da cidade, o lixo amontoado, a falta de saneamento, permitem que doenças como a peste bubônica e febre amarela dizimem uma parcela considerável da população. Medidas sanitárias austeras precisam ser tomadas. Uma opção encontrada pelo governo de Rodrigues Alves para diminuir a população de ratos nas ruas é pagar um valor para cada morador que entregar um rato morto. Mas isso permite que uma outra espécie de roedor venha a surgir: o ser humano com sua antiga mania de tentar tirar vantagem em tudo (desde sempre um traço característico que "co-rói" as qualidades morais do homem). Para a surpresa, a própria população passa a criar ratos, afim de "ganhar" em cima do governo. Em novembro do mesmo ano é aprovada a lei de vacinação compulsória contra a varíola e, num cenário onde a maior parte da população é desinformada, essa medida é a gota d'água. Boatos sobre o processo de elaboração e produção da vacina e as consequências para o ser humano (que incluem ficar com as feições bovinas, tipo...algo como, mudar o DNA) correm e, naturalmente, movida pela falta de esclarecimento e conhecimento, a população vai às ruas transformando aquilo que já era uma visão pandêmica, num cenário apocalíptico. Como resultado, o governo retira a vacinação obrigatória, aumentando não só os casos de morte por varíola, como também o de outras doenças.
Apenas quatorze anos depois a cidade (e o mundo) vive uma pandemia que leva à morte mais de 50 milhões de pessoas ao redor do mundo e cerca de 35 mil no Brasil: a Gripe Espanhola. Causada por uma mutação do vírus da gripe (influenza), a doença desaparece no fim de 1919, do mesmo jeito que surgiu: do nada e antes mesmo de ter sido encontrada uma vacina. O tratamento aplicado é o mesmo que conhecemos até hoje: repouso absoluto, alimentação adequada e água, muuuita água. Sobreviveram aqueles que tinham um sistema auto imune fortalecido o bastante para dar respostas aos tratamentos aplicados.
Falando assim, parece até que estamos nos referindo aos dias de hoje. E não estamos? De lá para cá, o que mudou? 102 Anos depois, o que mudou em relação à gripe, ou em relação ao que sabemos sobre ela? Afinal, qual é a cura definitiva para a gripe? Já se perguntaram se a gripe tem CURA? Ou será que tem apenas TRATAMENTO? Não gostaria de desanimá-los, mas tudo o que temos até hoje, o máximo que conseguimos ter no combate à gripe (ou melhor, àS gripeS), mesmo com todo avanço da medicina, são tratamentos. Apenas tratamentos. Isso por que o vírus da gripe sofre mutações, algumas até num curto espaço de um ano. Portanto, fica difícil falar em cura definitiva para um vírus que se muta toda hora. Nem sabemos de fato, quais são as mutações que podem ou não atingir o organismo humano. Senhores, se alguma coisa mudou de 1919 para cá, essa coisa foi o próprio vírus. Esta é uma característica dele, é da natureza dele. A natureza dele é mutar, assim como a nossa natureza humana é a de lutar.
Nossa ciência evoluiu, mas nossa fragilidade não. O vírus se fortaleceu, mas nossa natureza biológica não. E mesmo com todos os esforços empenhados pela ciência em produzir um tratamento mais adequado através da vacina, ainda tem gente que duvida, como duvidaram lá atrás, há 116 anos. Se tudo parece que ficou pior em um século, nossa ignorância e prepotência segue na mesma linha. Naquela época eram boatos e hoje, fakenews. Naquela época era desconhecimento, hoje é ignorância. Naquela época era falta de informação, hoje é excesso de informação.
O fato é que somos humanos e nossa natureza é perecível, frágil demais para competir com...um vírus. Por outro lado, talvez, por isso mesmo Deus tenha nos compensado de alguma forma fazendo do organismo humano essa máquina super potente, capaz de produzir suas próprias células de defesa. Talvez por isso, nós nos diferenciamos de todas as outras espécies no mundo, sendo dotados de uma inteligência tal que nos permite fazer tudo o que fazemos, como fazemos, para bem e (infelizmente) para o mal. Talvez por isso, sejamos mesmo tão especiais por sermos únicos na criação: isso, simplesmente humanos e mais nada. Nós não temos a capacidade de mutar, mas temos a oportunidade de fazer escolhas e nesse momento podemos escolher não cometer os mesmos erros que em nosso passado histórico nós cometemos. Já deu tempo para evoluir em relação à estas questões, não acham? Um século e dezesseis anos é tempo bastante para insistir em cometer o mesmo erro. Para quê revoltar-se contra algo que a humanidade pediu tanto e a ciência vem lutando tanto para conseguir?
Cientistas das mais diversas áreas da saúde, que passaram noites em claro, debruçados sobre livros e microscópios buscando a saída para a produção de uma vacina que pudesse dar uma resposta no combate à pandemia, fizeram muito mais pela saúde do que aqueles que insistem em fazer campanhas anti-vacinas caminhando na contra-mão da evolução científica e de tudo o que já foi alcançado até aqui. É por causa deste tipo de ideologia que doenças que haviam sido erradicadas do Brasil estão retornando para o seio da nossa sociedade: a população mais carente. Esses pesquisadores dedicaram anos de suas vidas em estudo para conseguirem fazer o melhor. Você pode até não concordar com a vacina ou com a eficácia dela, assim como há pessoas que não acreditam em Jesus, assim como há pessoas que defendem BolsoNero e acham que ele é a encarnação do Messias, assim como há pessoas que apóiam o armamento da população e dizem que Educação não serve para para nada, assim como há pessoas que negam o óbvio. Você pode ser uma dessas pessoas que dizem que "isso tudo que está aí" é "só uma gripezinha". O que você NÃO PODE é deixar que a esperança em dias melhores acabe, por que simplesmente você acha que 78% de eficácia não é muita coisa. 78% É mais da metade, então 78% é muita coisa. Não creio que 78% possa ter um resultado pior do que aqueles 55,13% de dois anos atrás. São 78% de esperança que não deve ser colocada em cheque por dúvidas motivadas pela nossa própria ignorância.
O vírus não vai acabar, sabemos disso. O que não podemos deixar é que ele acabe conosco. Essa é a questão. Estamos todos tentando fazer o melhor, empenhados na busca pelo melhor,(ou pelo menos deveríamos estar fazendo a nossa parte, aquela que nos cabe neste latifúndio, ficando nele, ao menos). 78% É muita coisa para os 2,7% da população mundial e 8,8% da população brasileira que perderam seus entes mais amados para esta doença. Com todo respeito, 78% podem fazer mais pelo país, do que as fakenews fizeram juntos até agora. E neste caso, o que mata não é o vírus, mas sim a nossa própria ignorância.
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