
O correto uso das máscaras vai além,
muito além dos procedimentos que vemos, assim como o motivo que escondem.
Elas são sim fundamentais para o atual momento que estamos vivendo e para o
atendimento profícuo das medidas de prevenção. E isso ninguém pode contestar!
Mas se pararmos para pensar, quantas são as máscaras que usamos em nosso cotidiano? Não me refiro às atuais, mas as que usamos
para esconder os nossos defeitos, nossa prepotência, nosso egocentrismo ou a nossa
arrogância. Não estas que mais funcionam como maquiagem, as quais nós
lançamos à face sempre que as conveniências sociais nos obrigam. Eu não me
refiro aqui às máscaras que usamos para esconder ou decorar, dependendo do
ponto de vista, as nossas superficialidades e futilidades. Estas há muito
tempo já não fazem mais sentido algum. Quer dizer, dependendo do contexto, até
fazem, mas como máscaras que são, logo caem e nos revelam a verdadeira face,
que é aquela que olhamos diante do espelho na hora de dormir, que nos revela
quem realmente somos: apenas um aglomerado de moléculas orgânicas, um conjunto
de proteínas organizadas de uma forma sistemática e que simplesmente deram
certo.
Hoje somos obrigados, quase que por
uma ironia do destino a usar máscaras. E, ainda como uma ironia maior ainda,
essa máscara incomoda. Você pode até querer mascarar a máscara e deixa-la um
pouco mais “na moda”, mas
isso não vai deixar de fazer com que ela cumpra realmente a sua função que, ao
contrário do que se pensava, não é a de esconder o que quer que seja.
Além de
cumprir com seu papel de proteção, as máscaras de hoje tem um papel tão
importante quanto proteger: o de silenciar. Isso mesmo: silenciar. Reparou?
Estamos sendo obrigados a tampar a boca para aprender a ouvir. Estamos tendo que aprender a falar com olhos e sorrir com o coração e com a alma. Estamos sendo
obrigados a calar nossa falta de moral, nossa falta de compaixão, de respeito para dar prioridade às reivindicações que realmente importam. Silenciando,
permitimos que os mais “rebeldes sem máscaras” se insurjam e se revelem ao escarnecer
da dor do próximo sem o menor pudor; diante deles nos chocamos em silêncio, vendo no
outro o reflexo da imoralidade, da falta de sensibilidade e, não raro, até
mesmo educação, que outrora aplaudíamos. Essas máscaras vêm com o especial papel de
conscientizar, de educar, de fazer com a geração de hoje aquilo que, nem os
pais, nem as experiências da vida – mesmo aquelas mais amargas e decepcionantes
– foram capazes de fazer: silenciar e civilizar (na marra!).
Se olharmos por um panorama histórico,
quantas bocas nós amordaçamos por causa do nosso preconceito? Quantas vozes e
gritos calamos no passado, com nosso comportamento individualista? Quantos
choros sufocamos para que prevalecesse a nossa vontade? Quantos nós levamos ao
sofrimento e permitimos que sofressem calados? Quantas vezes fizemos isso? Quantas
vezes fomos culpados pelo sofrimento silencioso do nosso próximo, por uma
simples questão de superficialidades? Justo seria que fosse chegado o momento
em que fossemos também calados e aprendêssemos a ouvir as queixas daqueles cuja
realidade negamos e negligenciamos num passado não tão distante. Justo seria
que uma hora a máscara da nossa hipocrisia caísse e fosse revelada a nossa
natureza humana tão frágil, mas tão frágil que um vírus é capaz de ceifar de
forma contumaz milhares de vidas. A solução? A resposta é o silêncio, pois nem
a ciência tem a cura ou resposta para todas as nossas angustiantes perguntas
diante do caos e da incerteza que nos aflige.
Por enquanto, nossa única saída é nos isolarmos
do mundo que outrora destruíamos, para que tenhamos vida...e assim, isolados permitimos ao mundo
respirar...do homem. Paradoxal, não é? Por enquanto a saída é sairmos com máscaras.
Por enquanto, ainda estamos tendo saída.
Silêncio.
“Silêncio é oração.”, disseram. E é a
mais pura verdade. O caos por hora silencia e revela os sons das vozes que as
nossas vozes não nos deixava ouvir, ou que nos negávamos a perceber. O silêncio
também fala e normalmente diz mais do que as palavras. Saibamos ouvir a
linguagem de amor e de solidariedade que o silêncio está nos convidando a ouvir. O
momento é para fazer silêncio. Silêncio para escutar e respeitar,
pois com tantas mortes, nada mais justo que todo o mundo seja obrigado a silenciar.

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