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Ignoranci...


         


Aí disseram algo.

Aí eu parei só para ouvir.

Não respondi. Só pensei.

Aí foi que eu escutei.

Aí me encuquei, me encasquetei:

“Aí? Que negócio é esse aí que esse moço tá falano?”

Aí vi que o moço não falava, só dizia.

Coisas soltas,

Era o que ele dizia.


“Mas é interessante esse negócio aí que ele diz…”

Aí, sobre aqueles dizeres, tudo, refleti.

“Ai que aquele moço dizia bonito por demais da conta...”

É um doutor!

Um ser hiperbólico, de certo!

Aí foi um monte de palavras pra lá,

Aí mais um outro monte de verbu pra cá,

Aí de repente as ideia

Meio que assim, do nada, transitarum.

Feito dois vaga-lume no escuro do mato.

Transitarum.

Aí eu ri.

Eu não entendi nem porque ri, mas eu ri.

Aí deu um estalo, um estampido

Lá dentro do fundo da cachola.


Aí decidi.

Fui lá naquele prédio bonito e vistoso,

a Escola.

Tinha que estudar!

Aí estudei. Uns ano lá, estudei.

Li um tal de Kant e Freud.

Aí, iihh não entendi nada…

“Que negócio é esse que esse moço diz?”.

Aí a cachola, aqui, bem no alto,

Onde fica os “miolo”, coçou.


“Mas isso é coisa de gente que é pra lá de letrada!

Curioso é tudo isso ter saído de uma cachola só!”

Li de novo: “Dotoieviski”, “Descarti” e “Roussô”.

“Ih é Português isso que tá escrito aqui, Dotô?


Não é não sinhô!”

Mai num era mesmo!

Era um emaranhado de letra

Que em nada fazia sentido!

Era uns pingo nos O, dois pingo nos U.

Pingo no A!

Onde já se viu desaforo maior para o A?!

Dois pingo na letra A!!??

Que som teria isso?

De desaforo, claro!

Um desaforo!

O som, não sei não.

Mas sei que isso não é coisa daqui, não sinhô!

 

Aí parei.

Botei a mão na cachola.

“Ai...pra que servia aquilo em cima do pescoço?

Essa cachola...”

Os braço e as perna, eu sabia bem.

A cachola era,

Até ver aquele moço,

O lugar pra guardá os oio, a boca, o nariz, os ouvido.

“Mas e agora que me meti nesse negócio de estudá?

 

Tinha que saber o tudo...

Tinha que justificar o nada…

Tinha que ser apregoadamente inteligente.

Tinha que ter tutano...

Tinha que ter aqueles dizeres do moço

Tinha que entender o que dizia

Aquelas danada daquelas letra toda.

E tinha que entender as letra tudo junto!

Sapiência demais isso!

Coisa de gente letrada por demais da conta!

Mas eu não entendia nada!

Aí parei.

 

Aí continuei.

Aí insisti de entender o inentendivel, o irrevogável.

Aí forcei pra fazer aquilo tudo caber na cachola.

E isso lá cabia?

Era coisa tanta, de tanta coisa

Que não sei não senhor...

Aí li de novo, e de novo.

Aí as letra, tudo misturada, formando palavra,

Fizeram sentido.

 

Aí li de novo.

E de outro em outro.

Em outro,

Eu em outro...

 

Aí fui ficando me achando

Um ser hiperbólicamente, inexoravelmente,

Inteligívelmente inteligível.

Magnânimo!

Supremo!

Aí as coisas do mundo fizeram sentido!

Aí a cachola fez sentido.

Aí esse negócio de estudar ficou bonito.

“Que há de mais engenhoso

que esse negócio de guardar

todos os saberes do mundo

Numa única cachola só?”

 

Aí entendi.

Aí o entendimento do que eu tinha entendido

Pediu para sair.

Aí agi.

Aí o conhecimento, eu dividi.

Aí, das coisas que eu falava

As pessoas achavam que,

(Pronto!), Enlouqueci.

Aí diziam que o que eu falava era esquisitice.

Aí eu vi que regredi.

Regredi?

 

Aí alguém riu.

Um riso dúbio,

Meio cambaio,

Meio sem saber do que riu.

Um riso de quem não entendia

Nada do que eu falava,

De certo.

 

Aí alguém disse:

“Que é que é isso que esse moço diz aí?”

Aí eu ri.

Aí vi que regredi.

“Pra quê tanto conhecimento

Dentro de uma cachola,

Se ninguém entendia

Aquilo que eu falava?”

 

Aí, diante do conhecimento de vida,

Ignoranci.

De tantas letras, tantos saberes,

O mundo era mais sensato

Quando eu não sabia para quê

Da velha cachola me servir.

  

(Poema inspirado no personagem de Fabiano da obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. Está proibida a publicação e/ou divulgação sem a prévia autorização da Autora.)

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